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BATISMO DE FOGO NA EUROPA

BATISMO DE FOGO NA EUROPA

02/07/2020 Bar do Museu Clube da Esquina

FONTE: LIVRO DE MARILTON BORGES – MEMÓRIAS DA NOITE – 2001 EDITORA ARMAZÉM DE IDÉIAS

Corriam os anos 80 e o degas aqui, para honrra própria e deleite idem, participava da superbanda do Célio Balona, o grande tecladista mineiro hoje radicado em Santa Catarina e que em Minas deixou um sem-número de saudosos amigos e admiradores. Apesar de atuar em bailes e coquetéis, forma de manifestação artística considerada menor por alguns mal informados, o conjunto era integrado por tantos tantos “cobras” que por mais que eu me esforçasse, nunca passei de uma simples “minhoca” dentro daquele verdadeiro serpentário musical sabiamente arregimentado e dirigido pelo ilustre colega.

Num belo dia, recebemos a ótima notícia de que fôramos convidados pelo governo da França para atuar no Festival da Música Brasileira em Nice, lugar onde dividiríamos o palco com alguns dos maiores e mais significativos nomes em atividade no Brasil, naquela época. O simples fato de estarmos incluídos entre tanta gente de valor teve para todos nós um doce sabor de vitória, uma vez que, naquele momento, tivemos a consciência plena do quanto é provinciano e idiota o preconceito contra os músicos da noite e do baile. Transcorrida mais de uma década após aquela ocorrência e refletindo um pouco sobre o assunto, minha constatação é a de que, se um evento daquela natureza fosse promovido nos mesmos moldes, nos dias de hoje, poucos nomes poderiam ser acrescentados àquela lista original de artistas brasileiros convidados, evidenciando isto, tristemente, o inegável estado de indigência criativa e cultural por que passa, atualmente, a chamada música popular brasileira.

Voltando à viagem propriamente dita e deixando o mau humor de lado, é claro que o meu coração bateu mais forte com a possibilidade de conhecer o Velho Mundo – afinal de contas, era a minha primeira viagem internacional – e, ainda por cima, ganhando um dinheirinho em vez de gastar um monte de dólares, como sempre ocorre neste tipo de empreitada. Meu deslumbramento de viajante calouro começou já no avião da companhia francesa, onde degustei, à exaustão, todas (eu disse todas) as iguarias colocadas à disposição dos passageiros pelo serviço de bordo, o que me ocasionou, dada a voracidade com que me entreguei a estes prazeres, uma baita de uma indigestão, ainda no vôo e lá pelas tantas da matina. Um verdadeiro vexame, para ser mais preciso.

Profissionalmente falando, a temporada na Europa foi um sucesso, tanto que durou uns quarenta dias e não apenas sete, como anteriormente fora combinado pela nossa produção e a direção do festival. Convites para que lá ficássemos em definitivo, em conjunto ou isoladamente, não faltaram, sendo que apenas o nosso guitarrista, o Toninho do Carmo, aceitou uma destas propostas. É hoje um dos mais requisitados músicos em atividade na França e todas as vezes que aparece por aqui, normalmente por ocasião das festas de fim de ano, lamenta não termos encarado o desafio, como ele.

Banzo era o nome dado a uma doença que afligia quase todos os nossos antepassados negros, nos primórdios da nossa história que dando-os inertes e chorosos, vítimas de uma dilacerante saudade da distante mãe África. Negros também e a mim unidos por uma amizade mais que fraterna, os megamúsicos Ezequiel Lima e Neném, meus companheiros de quarto nesta viagem internacional e de muitos sons em outras diversas e memoráveis jornadas musicais, foram vitimados, lá, por este cruel e secular mal. Saudades da mulher, saudades dos filhos, saudades do bar da esquina, saudades do Brasil. E tome muita febre, mal-estar, resmungos, tosse, muitos ais e confinamento voluntário no hotel, apesar da exuberância daquele ensolarado verão na Côte D”azur. Foi o locutor que lhes fala que medicou os dois amigos com aspirinas, xaropes e pílulas antigripais, já que, prevenido, tinha em mãos um estojo de primeiros socorros com todos aqueles ingredientes indispensáveis para remediar, na acepção mais completa do termo, situações emergenciais como a que se apresentava, naquele momento. O tratamento foi de primeira, com direito a café da manhã, na cama, caldos e sopinhas na boca e monitoramento de hora em hora da temperatura e pulso. Muita gente me pergunta o motivo pelo qual o Ezequiel e o Neném me chamam de Mamãe. Acho que está explicada a razão do apelido carinhoso.

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