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DAS PINGAS QUE EU TOMO E DOS TOMBOS QUE EU LEVO

07/07/2020 Bar do Museu Clube da Esquina

FONTE: LIVRO DE MARILTON BORGES – MEMÓRIAS DA NOITE – 2001 EDITORA ARMAZÉM DE IDÉIAS

DAS PINGAS QUE EU TOMO E DOS TOMBOS QUE EU LEVO

Quando o espectador vê o músico ali no palco, sorridente, esbanjando energia e disposição, trajando a sua roupa domingueira e mandando ver no seu instrumento ou mesmo soltando a voz, não pode nem de longe imaginar o grande cerimonial e os numerosos e pequenos detalhes que antecedem toda e qualquer apresentação musical.

Sem falar nos cansativos, necessários e às vezes enfadonhos ensaios, onde minúcias que certamente passarão desapercebidas aos ouvidos comuns são repassadas às centenas, existem ainda alguns outros pormenores imprescindíveis para a boa execução do trabalho musical que fazem dos profissionais envolvidos integrantes de uma mão-de-obra (bota mão-de-obra nisso!) absolutamente especializada. Antes e depois do show.

Para que o artista suba ao palco, é óbvia a necessidade, em primeiro lugar, da elaboração de um contrato de trabalho, onde estarão detalhadas as responsabilidades de quem contrata e de quem é contratado para a realização do evento, tais como tipo de repertório, pagamento de direitosDAS PINGAS QUE EU TOMO autorais, tempo de duração do show, sonorização e iluminação, transporte e alimentação da equipe, hospedagem, camarins, divulgação e mais uma dezena de penduricalhos legais. Ainda perto da apresentação e algumas horas antes da realização da mesma, existe uma chatice chamada “passagem de som e luz” que, via de regra, leva muito mais tempo do que o show propriamente dito. É neste momento de martírio que os técnicos de som e luz tentam ajustar ao seu gosto e ao do artista algumas centenas de botõezinhos localizados nas suas respectivas mesas de trabalho. E aí acontece aquele festival de acordes esparsos dos diversos instrumentos, tresloucados sons de bumbos, caixas e pratos de bateria, alôs nos microfones a perder de vista. São os ajustes finais.

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Chega o grande e mágico momento. Se for numa casa noturna ou num clube, é bom dar uma rezadinha antes, para que nenhum bêbado mais inconveniente coloque tudo a perder e para que o som e a luz estejam como estiveram naquelas horas anteriores, sem que os operadores, num acesso de zelo e como quase sempre ocorre, alterem os controles e passem a reajustar tudo naquela hora imprópria, ou seja, exatamente durante a realização do espetáculo. No caso de estar diante de uma plateia eclética, como em casamentos e outras festas do gênero, é aconselhável ter na bagagem uns dez quilos de boleros e valsas, para os mais velhos, e toneladas de axés e pagodes, para a rapaziada, fora os pacotinhos de sertanejos, para o mais surdos.

Tendo dado tudo certo e encerrada a função, é hora de correr atrás do “faz-me rir”, da “bufunfa”, da “grana”, do cachê nosso de cada dia. Os mais famosos até recebem antes, mas, se o cidadão estiver inserido nas prateleiras de baixo ou nas intermediárias, prepare-se para uma grande maratona, pra queniano nenhum botar defeito. E tome telefonemas mil, chás de cadeira sem conta e um arsenal de justificativas para a equipe, que, depois de tanto esforço, quer receber a justa remuneração pelos serviços prestados. Com alguma sorte, o dinheiro estará em sua mão uma semana depois da realização do evento.

Uma jovem e bobinha advogada, apesar de muito bem-sucedida na sua profissão, me disse, uma vez, que tinha uma saudável inveja da vida que camaradas como eu levavam. E me perguntou sobre as delícias e as maravilhas de “levar a vida na flauta”. Veio à minha mente a figura querida do amigo, irmão e insuperável cantor Gilberto Santana, dono da frase que, a propósito, me ocorreu e com a qual respondi a indigitada causídica, parafraseando-o, na bucha:

– A senhora só vê as pingas que eu tomo. Não imagina os tombos que eu levo…

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