Eventos, Projetos Culturais

LIVRO DE MARILTON BORGES

19/05/2020 Bar do Museu Clube da Esquina

A VOLTA DO QUE NÃO FOI

(junho.98)

FONTE: LIVRO DE MARILTON BORGES – MEMÓRIAS DA NOITE -2001 EDITORA ARMAZÉM DE IDÉIAS

O meio musical é povoado por algumas figuras carimbadas que, entra ano, sai ano, estão sempre por aí, nos bares, bailes, shows e discos da vida, todos cumprindo zelosamente sua doce função de enlevar os espíritos com o dom que Deus lhes deu. O convívio entre estes iguais é quase sempre ditado pelas circunstâncias de trabalho, ou seja, grande parte do pessoal só se vê quando vai atuar junto, fato que, infelizmente, limita os encontros entre profissionais que têm uns pelos outros, pelo menos aparentemente, respeitosa admiração. Nas priscas eras, o Ponto dos músicos, sobre o qual já escrevi, cumpria esta missão muito bem, uma vez que era lá que a gente sabia de mais detalhes sobre como andava a vida dos demais colegas de profissão. Foi lá que surgiu a notícia da morte do Generoso, um acordeonista gaúcho, alto, forte, careca e boa pinta, bom de prosa e de garfo, e muito popular, não só entre os músicos do Ponto, como também junto às profissionais do sexo, que operavam av. Santos Dumont abaixo, na chamada zona boêmia. Segundo o que foi falado na época, um desastre automobilístico, numa estrada do Mato Grosso, acabara com a vida do acordeonista, que se encontrava naquelas paragens a trabalho, no elenco fixo de um determinado e famoso circo. Provavelmente, pelo que conhecíamos do Generoso, devia ter falecido namorando uma linda bailarina ou trapezista, sei lá.

Sua morte foi sinceramente lamentada por todos e até os que não bebiam acabaram fazendo-o nas diversas homenagens pós-turmas que se sucederam nos bares da, digamos, parte alegre da cidade. Muita gente chorou de verdade e não foram poucos os que, em sinal de respeito, guardaram uma semana de luto, ficando sem tocar e sem sequer olhar para seus respectivos instrumentos.

Numa bela madrugada, um ano mais tarde, num certo restaurante da Caetés, muito frequentado por músicos, fez-se, repentinamente, no ruidoso ambiente, um silêncio sepulcral. Meu companheiro de mesa, o pianista Helvius Vilela, e que estava de frente para a porta do estabelecimento, empalideceu e, com os olhos arregalados, apontou para alguma coisa as minhas costas. Me virei pra trás para tomar o susto também. Entrando pela casa, com o melhor dos seus sorrisos, vinha o Generoso, vivinho da silva.

Segundo o que nos disse, tinha se casado recentemente e estava morando em Porto Alegre, mudara de profissão e agora era um bem-sucedido representante comercial. Perdera um primo, igualmente acordeonista e igualmente Generoso, num desastre no Mato Grosso. Quase morreu de dar risadas, quando entendeu o impacto, não só da sua morte, mas principalmente daquela, para nós, súbita reaparição.

A turma não se abalou. Afinal de contas, tínhamos um ótimo motivo nas mãos e não íamos deixa-lo passar em branco. Refeitos do susto, encaramos mais um mês de golo, direto e reto, comemorando a ressurreição do Generoso.

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