Roteiros Turísticos

O BIFE DA DISCÓRDIA

Bar do Museu Clube da Esquina – 10/10/2021

FONTE: LIVRO DE MARILTON BORGES – MEMÓRIAS DA NOITE -2001 EDITORA ARMAZÉM DE IDÉIAS

12.03.97

Os irmãos Santana sempre tiveram lugar de destaque na música popular mineira dos anos 50 e 60, tendo feito a alegria de muita gente boa que os viu em ação, nos clubes e boates da época.

Comandados por Gilberto, o garoto que cantava sorrindo, Bijoca no violão e contrabaixo; Ceguinho na bateria e percussão e ainda o Gílson, que, embora talentoso, foi profissional de música por pouco tempo, formaram bandas históricas e pioneiras, numa hora em que tudo era difícil de se fazer, pela precariedade de equipamentos e instrumentos.

Ainda quase um menino, tive a alegria de compartilhar dos palcos de minas com alguns destes craques, sendo que me vem à memória o grupo montado por Gilberto para animar os jantares dançantes do PIC e do Jaraguá, que era formado por Hely Drumond nos teclados, Bijoca no contrabaixo, Tiãozinho na bateria, Hilário na guitarra, Nivaldo Ornelas no sax, maestro Jeferson Silva no trompete, Sílvio Barbosa no Trombone e ainda o próprio Gilberto e eu como “crooners”

Foi no meio destas feras que aprendi os pontos que diferenciam o bom do mau profissional e o homem do moleque, ensinamentos que até hoje têm me ajudado no dia-a-dia desse sofrido ofício.

Se tem uma coisa que todas as diretorias de clubes fazem questão, o serviço de jantar para os músicos que lá trabalham é uma das principais, sendo que, neste aspecto, o Jaraguá sempre foi imbatível. Encerrado o jantar dançante das sextas-feiras, era servido aos integrantes do conjunto do Gilberto Santana um quase banquete, coroado quase sempre com suculentos e enormes bifes de filé, degustados, àquela hora da matina, pelos integrantes da banda, até com uma certa, digamos, sofreguidão.

Não sei se por magnanimidade ou se por maldade, a verdade é que sobrava sempre um bife à mesa, mesmo depois de servidos todos os músicos, fato que gerava uma calorosa disputa pela posse do mesmo, por parte dos dois ou três mais gulosos da turma, nos quais, evidentemente, eu me incluía.

A solução óbvia era dividi-lo pelo número de esfomeados interessados, fato que nunca agradava a ninguém, visto que, na maioria das vezes, o mais tímido era sempre o prejudicado. Com certo ar de superioridade, os mais velhos e por que não dizer, mais educados da banda, se divertiam com a disputa pelo bife excedente, que, sexta após sexta, se tornava cada vez mais acirrada.

Hely Drumond, o tecladista, ainda que nos seus trinta e poucos anos, era professor do Conservatório Mineiro de Música e violinista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, fatos que, aliados à sua calvície precoce, lhe davam indiscutível autoridade junto aos demais formadores do conjunto. Veio dele a solução milagrosa que colocou fim à novela do bife:

– Um de vocês parte e os demais escolhem seus respectivos pedaços…

A partir daquela sábia decisão, só faltou músico levar fita métrica e trena para o Jaraguá.

Mas nunca mais ninguém discutiu  um pedaço de carne no conjunto do Gilberto Santana.

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