Roteiros Turísticos

O OPERADOR DA AVE-MARIA

Bar do Museu Clube da Esquina – 10/10/2021

FONTE: LIVRO DE MARILTON BORGES – MEMÓRIAS DA NOITE -2001 EDITORA ARMAZÉM DE IDÉIAS

Nas minhas andanças de mascate da comunicação por este mundão velho sem porteira, já fiz de tudo um pouco. É claro que, frequentando as ante-salas do rádio, do jornal, da TV, da música e da propaganda, durante anos a fio, os “causos” se acumulam e conta-los neste espaço torna-se um exercício semanal de saudável reflexão e, sobretudo, de teste para minha memória, o que não deixa de ser até de uma certa forma, paradoxal, para um camarada como eu, que sempre detestou aquelas pessoas mais velhas que, de costas para o futuro e para o presente, só encontram prazer relembrando o passado. Como o meu presente anda ótimo e meus sonhos para o futuro ainda continuam de pé, continuo à vontade para, sem ser um remissivo patológico, contar aqui um pouco do que aconteceu e acontece nos bastidores do meu meio.

Diz a lenda que existia um certo diretor artístico, de uma determinada emissora de rádio, que, além de insuportável ditador, era dado a tomar uns golinhos para mais, sempre que pudesse. Além destas tristes características, o carrasco nunca abriu mão de fazer, pessoalmente e ao vivo, para toda empresa do ramo que dirigiu, religiosamente, na acepção mais completa do termo, às seis da tarde, a oração da Ave-Maria. Ainda que a rádio tivesse um excelente quadro de locutores, aquele era um privilégio que ele não compartilhava com mais ninguém. Segundo o meu amigo e filósofo nas horas vagas, Tutti Maravilha, gosto não se discute – lamenta-se–e, assim, nosso infeliz diretor, com poderes para demitir, admitir, prender, soltar e fazer o que quisesse dentro da rádio, dava vasão à sua, digamos, estranha mania, diariamente, sem a menor contestação de ninguém, exceto nos corredores da emissora e longe de sua sombria presença é claro.

Numa certa tarde, o operador de áudio do horário da tarde faltou e, em seu lugar, assumiu a mesa de operações um garoto novato, o Didi, que ainda estava sendo treinado mas que, na emergência, encarou o rabo-de-foguete. Naquele dia, o diretor malvado devia ter tomado umas quatro ou cinco daquelas que, na hora do xixi, furam a porcelana do vaso. Entrou no estúdio em cima da hora e, apressadamente, colocou o fone no ouvido. A mecânica era simples: o operador rodava um disco com a música da Ave-Maria, em Latim, bem baixinho, e o locutor (?) repetia a própria, recitada em português, um pouco mais alto. Só que o pobre do Didi, novato e tremendo de medo da “fera”, fez exatamente o contrário. Abaixou o microfone e soltou o disco estourando os tímpanos de quem estivesse ouvindo, com todos os decibéis a que tinha direito. O ditador, enraivecido, passou a ge3sticular para o operador, já que falar não dava, pois o programa estava no ar. Seus gestos para que o Didi abaixa-se o volume não foram entendidos.

Alguém chegou no estúdio alguns segundos depois e presenciou a cena surrealista: pensando que era pra ele próprio se abaixar, Didi não deixou por menos: ajoelhou-se, trêmulo, e, contritamente, para desespero do diretor “bebum”, rezou a Ave-Maria.

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