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Milton Nascimento celebra o Clube da Esquina, e emociona público por onde passa

Por Victor Sousa – 22/06/2019

Milton Nascimento celebra o Clube da Esquina, e emociona público por onde passa

E disse Elis Regina: “Se Deus cantasse, seria com a voz de Milton”. A declaração carrega o imaginário relacionado a um dos grandes do panteão da música brasileira. Mas Milton Nascimento também é apenas Bituca, o menino que no primeiro contato com o violão o dominou sem nunca ter tocado um acorde antes, e que em parceria com amigos, deixou um legado musical que ainda inspira e fascina: os álbuns Clube da Esquina (1972) e Clube da Esquina 2 (1978).

As obras batizam e são matéria-prima da turnê que chegou ao Rio, com ingressos esgotados, depois de passar por Juiz de Fora, Belo Horizonte e São Paulo. Bituca mostra pela primeira vez um show conceitual dedicado a essas músicas que fazem parte da memória afetiva de tanta gente, algumas delas apresentadas ao vivo pela primeira vez. “Paisagem da janela”, “Ponta de areia”, “Cravo e canela” ou “Nada será como antes”, para citar apenas algumas, remetem a lugares, sabores, cheiros, amores e amizades, e certamente transportaram o público para os melhores momentos de suas vidas ao longo de uma hora e meia de show.

Acompanhado de Wilson Lopes (guitarras e violões), Alexandre Ito (baixo), Ademir Fox (piano), Widor Santiago (metais), Lincoln Chebib (bateria), Zé Ibarra (vocais) e Ronaldo Silva (percussão), Milton abriu o show dedicado a Lô Borges com “Tudo o que você podia ser”, música que pode ser interpretada como um recado em tempos difíceis (Sei um segredo você tem medo / Só pensa agora em voltar / Não fala mais na bota e do anel de Zapata.

Tudo que você devia ser sem medo). É impossível dissociar a música de Bituca das lutas do cotidiano e do posicionamento perante o mundo – por mais que você encare música apenas como arte pela arte.

E no tocante ao aspecto artístico, vale mencionar o cuidado estético com a cenografia, assinada pela dupla de artistas Os Gêmeos, em uma bela referência a icônica capa do disco de 1972, que durante muito tempo alimentou o imaginário de fãs que acreditavam ser Bituca e Lô Borges crianças. Além do visual, o público pôde apreciar a releitura na forma de algumas canções, encorpadas com arranjos de metais que dão notas sofisticadas, sem perder de vista a aura genuína que marca os discos.

E ainda conhecer um pouco de Zé Ibarra, vocalista da Dônica, e agora parte da banda que acompanha Milton, onde dividiu os vocais em algumas músicas e teve momentos solo, como em “San Vincente”, “Estrelas” e “Trem de doido”. Uma prova da atemporalidade de canções que influenciam uma nova geração de artistas.

O tempo, embora seja implacável com o homem, não impede que Milton ainda mostre vigor através de suas composições e também de seu carisma, ao dividir com o público os causos que inspiraram parcerias e músicas. Pode surpreender a revelação de que Bituca não se identificava com a arte de compor e essa veia ser despertada após sessões de cinema Nouvelle Vague com Márcio Borges.

Quando finalmente viu em Lô Borges um rapaz em pé de igualdade e não mais um menino, quando este pediu uma batida em um bar, no lugar do refrigerante de sempre. Ou ainda a história de quando abriu a encomenda endereçada a mãe, um violão, no qual tirou uma música sem nunca ter tocado antes, e que por isso, conseguiu escapar de uma bronca ao impressionar Dona Lilia.

A admiração pelas mulheres é parte fundamental da obra de Bituca, e rendeu momentos emocionantes, como em “Lilia”, música dedicada à sua mãe, momento em que explicou o fato da mesma não ter letra: por não haver palavra que descreva a sua beleza.

Também em “Maria Maria”, uma das mais celebradas pelo público, foi dedicada a grande dama da arte brasileira, Fernanda Montenegro, presente no show. Outro momento marcante foi a referência a Fernando Brant, que morreu em 2015, ao dizer se sentir grato por sua amizade, sem a qual a vida não teria sido tão bonita. Não à toa, o show termina com “Paula e Bebeto”, e um recado sobre o que é importante em nossa passagem pelo mundo: o amor, seja sob qual forma, nos torna melhores.

Muito além de um show, a noite foi a celebração de uma obra atemporal e da vida de um grande artista, que ainda hoje nos dá um norte para compreendermos o que é ser brasileiro em essência.

Reportagem: Zimel

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Bar do Museu Clube da Esquina

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