Roteiros Turísticos

A FAFÁ E O PIPI

A FAFÁ E O PIPI
26.03.1997

 

A maioria dos músicos da minha geração optou por ir tocar sua viola em outra freguesia, pois, se hoje o nosso mercado já não é grande coisa, imagine o que era nos anos 70.

Descendo das montanhas para o mar – leia-se Rio de Janeiro – quase uma centena de gente muito talentosa resolveu tentar a vida numa praça maior e que, queiramos ou não, gostemos ou não, ainda é a grande vitrine do músico brasileiro. Afinal de contas, se é lá que ficam os estúdios das maiorias gravadoras do País, se é lá que residem as grandes estrelas da música, nada mais natural do que trilhar o caminho que estes companheiros escolheram, ainda, que alguns como eu, por comodismo ou amor a esta indecifrável Belô, tenham decidido o contrário.

A verdade é que quase todos se deram muito bem, ora atuando nos elencos de apoio de mega estrelas da MPB, ora assinando seus próprios trabalhos, o que lhes possibilitou a mudança da condição de meros coadjuvantes para a de músicos de renome até internacional.

Ainda que enfrentando uma certa resistência por parte dos profissionais que já moravam no Rio – falava-se até, na ocasião, em Máfia Mineira – os nomes destes meu amigos começaram a aparecer com frequência nas contracapas dos melhores discos da época, assim como também nos programas de televisão e nas notícias dos cadernos culturais dos principais jornais de lá.

No embalo desta onda que invadiu a Cidade Maravilhosa, Fafá de Belém contratou alguns músicos mineiros para sua banda, fato que, segundo dizem as más línguas, é motivo de um certo arrependimento até hoje por parte da talentosa cantora paraense, em virtude do que veremos a seguir.

Fafá cantava em um teatro localizado na Rua Paissandu, no Flamengo, e era tempo em que ela aparecia para a mídia não só pelo seu belo timbre de voz, como também pela opulência de seus atributos físicos e de suas oportunas intervenções no mundo da política.

Casa cheia, plateia masculina ululante, e tome aquele desfile de sucessos e carimbos, muito bem marcados por um poderosa banda de Apoio, integrada, entre outros, por um conhecido baterista mineiro, que, sedento, havia consumido umas seis ou sete cervejas antes do início do espetáculo.

Todo show que se preza tem que ter, no meio, aquele momento de músicas mais lentas, onde o cantor ou a cantora fica no palco acompanhado apenas por um violão ou piano, entoando canções românticas, estratégia usada na verdade, para um pequeno descanso não só dos músicos como também da plateia. Ninguém ali estava mais ansioso pela chegada daquela hora do que nosso baterista, com a bexiga por estourar e louco para se aliviar tão logo pudesse. O que ele não contava era com o excesso de previdência do produtor do espetáculo, que, tendo que se ausentar por alguns instantes, trancou as portas dos camarins e dos acessos aos banheiros destinados ao público. Desesperado, o músico não teve outra alternativa: encostou-se numa parede atrás do palco e, literalmente, soltou a franga. E, aí, o cheiro de tragédia ficou mais forte quando ele descobriu que a construção do teatro tinha um pequeno detalhe: a parte da frente era mais baixa que a de trás, o que tornava o palco ligeiramente inclinado.

Fafá de Belém, descalça, num vestido branco, elevada pela beleza das letras e canções que interpretava, tomou um baita susto quando viu aquele pequeno filete amarelado descer da rotunda negra do fundo do palco até a boca de cena.

Pelo que sei, nunca mais um músico mineiro tocou em sua banda.

 

Bar do Museu Clube da Esquina – 28/07/2021

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