Roteiros Turísticos

A TURMA DA PILANTRAGEM

A TURMA DA PILANTRAGEM

17.07.97

Final dos anos 60 e a vida corria agitada na mansidão morna da jovem Beagá. Lá no nosso Gemini VII, a rotina dos shows diários no Pep”s, uma grande loja de departamentos, que ficava ali na Rua da Bahia, entre Goitacases e Augusto de Lima” nos finais de semana, às sextas, os jantares dançantes do Automóvel Clube” aos Sábados, tome mais jantar dançante, só que no Iate, e, aos domingos, Círculo Militar e as incríveis horas dançantes promovidas pelo pessoal da Odontologia da UFMG. Com tantos compromissos a cumprir, é claro que o número de ressacas matinais era proporcional ao de eventos realizados, eis que, na flor dos nossos vinte e poucos anos, encerradas as apresentações, ir embora direto para casa, sem tomar umas e outras, quem haveria de?

Depois de uma noitada daquelas, o telefone toca como se um carrilhão de catedral fosse, só que dentro da minha dolorida cabeça. Mal-humorado como em todas as manhãs e com aquele terrível gosto de cabo de guarda-chuva na boca, atendo com relutância o maldito, e, do outro lado da linha, a voz amiga do Assad de Almeida, na época representante de uma grande gravadora, fazendo o convite para que eu passasse a integrar a Turma da Pilantragem, uma das bandas de maior sucesso no País. O tombo da cama foi inevitável, tamanho o susto, pois, guardadas as devidas proporções, seria como se, nos dias de hoje, um músico de um conjunto de baile qualquer acordasse numa bela manhã e fosse chamado para tocar com o Skank, por exemplo. É claro que topei na hora, ainda que sem saber direito se tratava de um sonho diferente ou se aquilo estava acontecendo comigo mesmo, de verdade. Quando o Assad me contou que minha estréia seria naquele mesmo dia, em dois shows, um na TV Itacolomi, outro no Jaraguá, não restou a menor sombra de dúvida: nós dois estávamos com sérios problemas mentais. Ele, por ter a audácia de propor tal aventura, eu, por aceitar de cara.

Depois de um arremedo de ensaio num quarto de um dos hotéis mais chiques da cidade, debutei na banda, sem a menor convicção e meio constrangido por dividir o mesmo palco e em igualdade de condições com grandes ídolos meus como Raul de Sousa, Márcio Montarroyos, Zé Roberto Bertrami, Fredera, Vítor Manga, Ion Muniz, Alex Malheiros e ainda o pessoal dos vocais, como minha velha amiga Malu Balona, mais Dorinha

Tapajós e a estrela da companhia, a Regininha – todos sob a liderança do enigmático Nonato Buzar.

Viajando, a partir daí, por todo Brasil, provei do sabor agridoce do sucesso, entrando pela primeira vez num avião, me hospedando nos hotéis mais estrelados e tendo a oportunidade de ver as paisagens mais deslumbrantes, que só um país lindo como o nosso pode proporcionar aos que por ele transitam, a passeio ou a trabalho. Não há, entretanto, idolatria que resista a alguns meses de convivência, mal antigo que às vezes transforma sonhos coloridos em dolorosa realidade preto e branco, sendo que comigo não foi diferente, pois em pouco tempo aprendi que aqueles músicos fantásticos, que eu só conhecia das contracapas de discos, no fundo, eram pessoas normais tanto quanto eu e, portanto, sujeitas a pequenos atos falhos de comportamento, naturais em qualquer ser humano.

Pra variar, um fato pitoresco ocorrido em Fortaleza. Depois de um show num dos clubes da cidade, superlotado, por sinal, fomos convidados para uma festa na mansão de um abastado político local, onde rolou de tudo, inclusive uísque. Chamava atenção dos presentes, todavia, o estado deplorável em que se encontrava um dos convivas, que, completamente embriagado, importunou todas as meninas da banda, e, com o descanso demonstrado por elas, alguns dos rapazes, também. Saiu da festa um pouco antes de o dia clarear, quase que carregado por seus amigos, para alegria e alívio de todos os demais convidados.

Fim de farra, foi a conta de corrermos para o hotel e de lá, rapidamente, para o aeroporto, de onde um possante turboélice nos levaria, as sete da matina, para outra Capital do Nordeste. Já dentro do avião, o Fredera, nosso guitarrista, me cutucou:

– Adivinhe quem é o nosso comandante?

Sentado na cabine de comando, protegido por um imenso par de óculos ray-ban, manuseando aquela parafernália de botões, rosto grave e ares de cidadão responsável e respeitável, o “mala” que dera tanta canseira a todos na festa, poucas horas antes.

Não sei que remédio milagroso deram a ele, mas a verdade é que, pelo menos até nosso destino o vôo transcorreu sem maiores transtornos, ainda que, por via das dúvidas, ao pisar em terra firme, eu tenha me benzido, agradecendo a Deus pelo milagre.

 

 

 

Bar do Museu Clube da Esquina – 30/07/2021

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