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As Aventura do Baú

07/07/2020 Bar do Museu Clube da Esquina

FONTE: LIVRO DE MARILTON BORGES – MEMÓRIAS DA NOITE – 2001 EDITORA ARMAZÉM DE IDÉIAS

As Aventura do Baú

18.09.97

Quando o Chico Anísio criou o Azambuja, um dos seus personagens mais engraçados, provavelmente terá se inspirado em alguém muito parecido com o Baú, se é que não conheceu o próprio, fato em que estou mais propenso a acreditar, tamanha a semelhança. Dono de um vocabulário peculiar e exclusivo, mulato, estatura mediana, bigodão encimando o sorriso branco na boca larga, filho da Dona Venância e do “Seu” Pedro – um dos primeiros motoristas de táxi de Belo Horizonte – e irmão do Bauzinho e do Ralinho, outras duas grandes figuras, Baú talvez tenha sido um dos maiores símbolos da tradição boêmia do bairro de Santa Tereza, sendo que esta impressão permanece até hoje entre os que o conheceram, mesmo após o seu prematuro falecimento, ocorrido há alguns anos.

Apesar de ser considerado um grande vendedor, profissão na qual poderia ter feito fortuna, só ia à luta no caso de muita necessidade, e, como sempre se contentou com o trivial, é claro que, ao longo dos seus cinquenta e poucos anos de vida, trabalhou pouco e farreou muito, com certeza. No baralho e na sinuca ganhava sempre, não sei se por sorte ou por algum subterfúgio, e numa mesa de bar, bom de copo e de prosa, fazia a alegria do ambiente, com uma voz que se alternava do grave ao agudo, entremeada sempre com gargalhadas, sonoras, altas e contagiantes.

Diz a lenda que, quando da construção de Brasília, um outro chegado nosso, o ex-boêmio e hoje artista plástico Gunimer, o Guni, achou por bem abrir lá uma casa de jogos, instalada precariamente como a maioria das construções da Capital Federal na época, ou seja, num simples barracão de madeira. É importante ressaltar que, naquela ocasião, a grande maioria dos habitantes do lugar era formada de operários da construção civil, os chamados candangos, recrutados, preferencialmente, nos estados do Nordeste, gente muito simples, mas muito brava, principalmente quando contrariada em algum interesse pessoal. Essa turma se constituía no grosso da clientela da casa, que o Guni administrava com a maior diplomacia, visto que a distância que separava aqueles pacatos cidadãos das namoradas e das esposas poderia transformá-los de uma hora pra outra em personagens dignos de qualquer faroeste italiano.

Num belo final de tarde, o até então feliz e endinheirado proprietário do cassino improvisado, sentado para uma rodada de baralho e de costas para a porta da entrada, ouve uma pergunta proferida por uma voz inconfundível:

– Cavalheiros, haverá lugar para mais um parceiro, nesta seleta mesa?

Naquele momento o sangue do Guni gelou pois, amigo íntimo do dono da voz misteriosa e inesperado visitante, sabia da situação financeira do mesmo – sempre duro – sendo que sua entrada na rodada resultaria, certamente, em trapaças e trapalhadas e consequentemente, em muita briga e confusão. Chamou o Baú num canto e pediu, quase de joelhos, que ele não atrapalhasse seu negócio, que ia de vento em popa. Não satisfeito com o apelo patético, ainda tirou um maço de notas do bolso, das mais valorizadas que existiam na época, e, transferindo-as para o bolso da camisa de seu interlocutor, imaginou estar pagando o preço justo para que ele ficasse longe da mesa de jogo.

Baú passou uma semana de rei no Planalto Central. Comeu e bebeu do bom e do melhor e conheceu toda a região a bordo de um táxi que, com a bolada recebida, alugou em jornada integral e a preço de ouro. Como sempre aconteceu em sua vida, a grana acabou muito mais rápido do que esperava, tendo ainda nestas andanças pela empoeirada cidade e nos seletos e distintos ambientes por onde passou travado conhecimento com um pistoleiro do Mato Grosso, também de passagem por lá, que – sabe lá Deus por quê – enxergou no nosso herói uma pessoa digna de sua confiança e simpatia. O caminho natural foi a volta ao estabelecimento do Guni, que, cedendo da posição anterior, lhe informou que poderia jogar, desde que tivesse dinheiro na mão e não trapaceasse. Sem um tostão no bolso, Baú apelou para o novo amigo e profissional do gatilho, que, relutante, lhe emprestou seu instrumento de trabalho, um reluzente e cromado Colt 38, imediatamente penhorado nas mãos de um agiota de plantão nas imediações.

O resultado era previsível. Sem poder apelar para as mutretas usadas à exaustão em Santa Tereza, local bem mais ameno do que aquele pesado ambiente em que se encontrava, Baú perdeu nas cartas todo o numerário obtido com o “pendura” do revólver.

O Guni, é evidente, não deixou a peteca cair, já que o que ele menos queria era confusão, naquela altura dos acontecimentos. Tranquilo, pagou ao agiota e prontamente devolveu o objetivo da penhora ao seu legítimo dono. Aproveitando o ensejo, contratou o proprietário da arma e juntos, tomaram todas as providências para que o Baú embarcasse, sob protestos, no primeiro ônibus que saiu da rodoviária de Brasília, naquele dia, rumo a Minas Gerais.

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